Vida de Acordes

13:11


Aproxima-se o momento. Aquele que é incapaz de deixar a minha mente relaxar. Aquele que faz ferver o meu estômago devido ao calor que os nervos me provocam. Aquele pela qual anseio há semanas pela necessidade de me manifestar, de mostrar do que sou feita.
       À minha volta, pouco se consegue observar devido à escuridão provocada pelo cenário que me esconde a mim e aos muitos que me rodeiam. A azáfama é tanta que é impossível ouvir alguma coisa. Todos correm de um lado para o outro na esperança de que nada corra mal. Até os próprios objetos ganham vida e parecem sussurrar-me palavras de coragem.


       É possível sentir-se os movimentos e as batidas vindas de cima do palco que se encontra para lá da parede de pano que me esconde. O homem experiente dá-me os últimos conselhos para que os meus pulmões não parem de funcionar e diz-me: “É agora”. Consigo aperceber-me de olhares que me observam como se desejassem o pior para o momento que será meu. Até que a música pára.
       Um turbilhão de sentimentos continua a fervilhar dentro de mim fazendo crescer os meus medos. É durante estes últimos segundos que duvido se serei capaz. Durante segundos questiono-me se estarei preparada. Apesar de estar prestes a acontecer aquilo que mais desejo, é também nesses mesmos segundos que tenho vontade de correr dali para fora e de me esconder com um enorme arrependimento. Até que os sentimentos mais contraditórios são acalmados por uma voz que me diz “És a maior, tu consegues”. 
     Ao fim dos segundos parecerem horas ouço chamar pela minha voz do outro lado da parede, do lado onde toda a magia estava a acontecer. Respiro. Volto a respirar. E enfrento a enorme plateia que se encontra prestes a julgar-me. Aquela que parece explodir como fogo de artifício. Luzes, aplausos, assobios, gritos, tudo faz pressão no auditório e me faz entrar em ebulição.  
      Os nervos não me possibilitam visualizar a quantidade de pessoas que se encontram a minha frente. Só o som dos seus manifestos me fazem concluir que serão umas centenas, algo que me faz imaginar a correr para o meu quarto, onde reina o silêncio, até que algo aparece em mim dizendo: “Agarra a oportunidade, sê quanto és durante este momento que é teu, pois pode muito bem nunca mais te ser dado.” E não desisto.
      A coragem aparece. A alma enche-se após ser feito silêncio. Os pulmões relaxam e o estômago deixa de ferver aos primeiros acordes. Com a sala em grande escuridão apenas um foco ilumina a minha presença. Agarro com convicção o instrumento que me foi dado para as mãos para me fazer ouvir. Solto as cordas vocais e deixo a minha alma levitar pela plateia. O facto de ter apenas uma semana de ensaios, de ter estado quase afónica, não me impede de enfrentar o público sem medo. E a magia acontece.
     Durante a atuação a minha alma transgride a realidade e voa para outra dimensão. A escuridão é interrompida por pequenas luzes que me captam. O meu sangue é bombeado a cada nota solta e a respiração mantida pelo arranjo de acordes tocado.
       Finalizo. As luzes acendem-se. A plateia explode novamente de imensas cores. Agradeço e deixo o palco, desejosa de voltar atrás e fazer tudo novamente.
      Anseio pelo futuro, pelos dias em que poderei fazer disto vida, pelos dias em que poderei partilhar as minhas emoções e viver do que as minhas cordas vocais me trarão.

“Na vida, o microfone passa pelos teus lábios, mas uma vez... é melhor estares pronto para cantar.” David Foster   

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3 comentários

  1. Fantástico! Lindo! Cheio de sentimento. Consegui sentir o que tu sentes só de ler. Não desistas, nunca. És enorme!

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    Respostas
    1. Que querida Inês ! :')
      Muito obrigada!
      significas tanto ! *.*

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  2. Só tens que acreditar, porque "uma casa sem música, é como um jardim sem flores"! :)***

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